Uma reportagem feita em 2009 depois do assassinato de Elson Sanches (Kuku), que tinha apenas 14 anos e foi morto com um tiro à queima roupa na cabeça. Quando os MC dos subúrbios começaram a organizar-se para que as pessoas dos bairros tomassem a palavra.
Num modesto estúdio em Cova da Moura, os Souljah interpretam uma canção em crioulo cabo-verdiano sobre a dolorosa ausência dos muitos jovens mortos no bairro. Inocentes ou não, todos foram mortos. Nas ruas de Cova da Moura, onde vivem mais de 7000 pessoas, tal como em muitos outros bairros pobres da Grande Lisboa, o rap é uma realidade.
No início dos anos 90, tornou-se o ritmo dos sem voz da sociedade. O género surgiu em bairros como Miratejo com as primeiras rimas em português, escritas nomeadamente por General D [rapper de origem moçambicana], e, pouco a pouco, espalhou-se pelos subúrbios. Alguns artistas conseguiram fazer sucessos, adotando posteriormente um perfil socialmente aceitável. Mas lá fora, o rap dos bairros continuou a fermentar, invisível até que os jovens se apoderaram dele.
Os Souljah transmitem a sua mensagem em crioulo. Uma língua que já não é apenas a dos negros, mas a dos pobres. «Sentimo-nos abandonados» As paredes do estúdio onde ensaiam estão cobertas de fotos de jovens do bairro que foram mortos. Um verdadeiro cemitério. Stef e Jackson, membros dos Souljah, contam que cantaram de norte a sul do país e que, em matéria de música, o sofrimento tem uma linguagem comum: «Todos reagem e ficam comovidos quando cantamos [sobre os jovens mortos pela polícia], seja nos subúrbios ou em Celorico da Beira [aldeia rural do norte do país]». Os três membros deste grupo de Cova da Moura são amigos de infância. Nasceram e cresceram lá. Há mais de dez anos, lançaram os Souljah como uma forma de expressão do hip-hop que reivindicam.

«Nós k nasi omi k ta mori omi» – letra em crioulo da sua canção, que significa «nós que nascemos homens e morreremos homens» – soa como uma pertença à «família» (ou crew) da qual fazem parte muitos MC de Cova da Moura. Letra que agrada a LBC Soldjah Minao. LBC usa o rap para fazer política por outros meios. Ao contrário de muitos rappers, incluindo o famoso Tupac Shakur [lenda do rap americano, assassinado em 1996], imortalizado pelo grafiter Odeith numa parede do bairro, ele recusa, por exemplo, o uso do termo nigger [termo pejorativo para designar um negro, mas em uso entre os jovens negros dos bairros populares]. «Penso que existem certas expressões que, mesmo que denunciem uma situação, tendem a estigmatizar as pessoas e a manter o status quo daquilo que se pretende combater. As palavras dos opressores carregam consigo a opressão», afirma LBC.
No café de Zeza, mãe de LBC, ouvem-se os acordes do funaná [estilo musical tradicional originário de Cabo Verde]. Até de madrugada, jovens e menos jovens dançam colados uns aos outros. A cultura é um grande cimento, mesmo para aqueles que nunca viram África. O continente negro tornou-se uma espécie de pátria imaginária, com muitos sons, para quem não tem terra nem direitos. Como explica MC Hezbollah, «as pessoas sentem-se órfãs: nasceram, vivem e trabalham em Portugal, mas sentem-se abandonadas pelo Estado».
Durante a discussão, um carro pára. Um jovem sai e grita «livre!» em crioulo. Todos se abraçam. Ele acabou de cumprir sete anos de prisão. LBC não nega que exista delinquência no bairro e que muitos jovens estejam atrás das grades, mas defende a ideia de que a maior violência não está nesses jovens: «Não há violência maior do que a pobreza, e esta raramente é denunciada». Hezbollah e LBC têm formação superior, mas só conseguem empregos precários. Há alguns meses, foram detidos pela polícia quando regressavam de uma festa. Posteriormente, apresentaram queixa por maus-tratos. As autoridades afirmam que eles cometeram um assalto, o que eles negam categoricamente. De acordo com testemunhos de familiares, os dois rappers foram ameaçados várias vezes pela polícia por distribuírem o Jornal do Gueto, em que denunciavam a violência policial cometida no bairro.

Na fronteira de Cova da Moura, encontra-se um enorme mural realizado com a ajuda de todos os seus habitantes. É um verdadeiro museu de graffiti ao ar livre. No final do mural, vemos Lisboa engolida por uma onda gigantesca. E uma frase que descreve o possível destino da cidade: «O que a terra roubou ao mar, o mar roubará à terra.» Parece uma metáfora da guerra entre os bairros pobres e a parte rica da cidade. Odeith, 35 anos, é o principal autor do mural. Começou a fazer graffiti no início dos anos 90. Para ele, esta arte será sempre ilegal: «Haverá sempre alguém que quererá impor o seu nome nas ruas.»
A mensagem está na ocupação do espaço, na sua apropriação pública. Odeith viveu durante muito tempo da tatuagem em Londres. Foi ele quem inscreveu no braço de Chullage a palavra vagalume, uma espécie de desejo incendiário de mudar o mundo [jogo de palavras com os termos «vagabundo» e «fogo»]. O rapper Chullage, cujo nome verdadeiro é Nuno Santos, é filho de cabo-verdianos que emigraram para Portugal antes da «Revolução dos Cravos» [que pôs fim a quarenta e oito anos de ditadura em 1974] e que tiveram o destino habitual dos imigrantes provenientes das antigas colónias: o seu pai trabalhava na construção civil e a sua mãe era empregada doméstica. Chullage viveu em bairros de lata antes de se mudar para Arrantela [perto de Miratejo]. Foi a descoberta de Rebel MC [músico rasta inglês, conhecido como Congo Natty, figura da música jungle], membro da Zulu Nation que o tornou um fã incondicional do rap. Em Arrantela, ele criou a crew Red Eyes Gang com vários rappers locais. Para eles, Chuck D [rapper norte-americano engajado, um dos fundadores do grupo Public Enemy] estava certo quando dizia que o rap era a CNN dos guetos. A música pode servir para conscientizar os bairros populares, mas também para reivindicar e denunciar fora de seus muros. Daí o uso do crioulo, mas também do português. «Gritar por dentro é uma coisa, gritar por fora é outra. Falar de pobreza para aqueles que a vivem, às vezes, não adianta nada. Nesse caso, cantar em crioulo torna-nos invisíveis. Por isso, de vez em quando, é preciso cantar em português», sublinha Chullage. Lutar contra a padronização.
Na casa de Jorginho, cantor e produtor de rap, a família partilha o quarto com um estúdio de gravação. Lá são feitas várias mixtapes que permitem que o rap de rua se torne conhecido. De bairro em bairro, de concerto em concerto, os MCs e os DJs trocam as suas mixtapes e espalham a mensagem. Atualmente, Jorginho dedica-se a recolher o som dos novos rappers da zona sul de Lisboa, antes de se dedicar aos da capital. A ideia é multiplicar as vozes, aumentar o número de pessoas que se expressam através do rap. Mais do que espectadores, este género musical exige, acima de tudo, temas. «Hoje, o rap está em toda parte, as pessoas copiam-no da Internet, ouvem-no nos seus telemóveis. Elas só precisam de um estímulo para se lançarem nele», explica ele.
Jorginho vive o rap intensamente, tal como a sua família: partilha a vida de Mónica, uma das MC, com Anokas e Vilma, das Red Chikas, um grupo feminino de Arrentela. As suas vozes refletem o modo de vida diferente das mulheres dos bairros. Vilma demonstra claramente que os subúrbios e o rap são universos mais fáceis para os homens: «Nós, mulheres, temos de cuidar dos filhos, trabalhar e, na maioria das vezes, estamos sozinhas. O número de mães solteiras é muito elevado, assim como o de mulheres desempregadas. A nossa música reflete necessariamente essas preocupações.» A economia está em crise e os bairros populares são duramente afetados.
Para DJ SAS, filho de imigrantes portugueses radicados em França e que fez o caminho inverso, esta crise obriga o rap a ter uma mensagem mais dura. O rap dos subúrbios não passa na rádio «porque a sua mensagem não interessa aos dirigentes das rádios, há uma forma de censura em Portugal», denuncia. As músicas que passam são melosas, uma caricatura do verdadeiro rap. A vitalidade do rap dos subúrbios não permite, portanto, que os seus «produtores» vivam disso. Um problema que DJ SAS e os outros tentam resolver através da Internet. Ou aumentando o número de concertos, mas também aí os organizadores recorrem frequentemente aos mesmos artistas. «Temos a impressão de que Portugal parou no tempo: vemos e ouvimos sempre os mesmos na televisão e na rádio», queixa-se DJ SAS. Ele vai continuar a lutar contra a padronização e prevê que «no dia em que as pessoas se cansarem, o choque cultural será enorme». Na maioria das vezes, o Estado parece ter abandonado os bairros populares. Quem conhece o bairro de Bela Vista, em Setúbal, sabe bem que muitas coisas que nos parecem garantidas são dificilmente acessíveis: a recolha de lixo é rara; o correio não é distribuído; a TV Cabo recusa-se a equipar o bairro. Gil Scott-Heron, um dos pais do rap, falecido no ano passado, tinha uma canção famosa em que afirmava que «a revolução não seria televisionada» [The Revolution Will Not Be Televised, 1970]. Sem dúvida, mas muitos jovens dos bairros populares estão convencidos de que as palavras podem mudar a vida.

