GraveComClave: A Cultura na Comunidade na Linha de Sintra

4-6 minutos

O hip-hop surgiu na década de 70 junto da comunidade afro e hispano-americana, nos subúrbios de Nova Iorque. Originalmente caracterizado pela crítica ao poder e à falta de condições de vida dignas, abordando temas como a pobreza, o racismo, a violência. No fundo, a realidade dos seus intervenientes.

Estima-se que o género musical tenha chegado a Portugal no final do século passado. À semelhança com o sucedido em Nova Iorque, foi adotado por comunidades marginalizadas, predominantemente nas zonas periféricas das grandes cidades, que também o usavam como veículo de exposição e denúncia dos mesmos problemas estruturais com que viviam.

Foi neste espírito que um coletivo de artistas independentes da Linha de Sintra, profundamente ligados ao movimento hip-hop, criaram a GraveComGlave, uma editora independente sediada no concelho de Sintra. Hoje, CADI, MissAniana, Kastiço, Content Pro, Xaval e Stephan Art querem continuar a descentralizar a cultura e trazê-la ainda mais para a periferia, trabalhando na sua arte: desde a captação à produção, da mistura à masterização, e dando, também, destaque a outros artistas da zona, tendo já trabalhado com nomes como Splinter, Mista Sanches, Ivan Pedreira e Kactoslitos.

“Sendo o hip-hop um movimento comunitário, uma cultura de partilha e de contacto direto entre pessoas, a GraveComClave nasce de forma natural dessa necessidade: a arte só faz sentido quando é vivida e partilhada, desde o processo de criação até ao palco ou à tela. A nossa missão é pelo hip-hop e pela nossa zona: a Linha de Sintra.” – CADI.

Atualmente, a editora é casa de seis artistas:

Stephan Art é um graffiti writer. Criador de vários murais pela linha de Sintra e conhecido pelo seu projeto “Debaixo D’água” uma exposição de arte, num dia especial do ano, que junta, também, vários nomes ligados ao Hip-Hop, em Portugal, e despoletou a criação de um projeto musical que visa juntar artistas que nunca tinham trabalhado juntos.

Xaval é um artista das Mercês que procura transformar as suas vivências em arte. Rap consciente sobre a realidade na periferia, a luta por direitos sociais, mas também amores de desamores. Lançou recentemente o tema O Jogo, que conta com a participação da MissAniana, e fará parte do seu próximo álbum “Palavras Cruzadas”.

Kastiço um é rapper e produtor com mais de 20 anos de carreira, tendo-se estreado no grupo 3º Direito, que ajudou a fundar, em 2000. Em 2014, formou a dupla DMK com a cantora DiMoura e juntos lançaram o EP “Sente Só”. Depois de ter passado por inúmeros palcos, em 2022, lança o seu primeiro álbum a solo “10DO10”, onde partilha sonhos e experiências, muitas das quais são transversais à classe trabalhadora, em Portugal. Faz parte do projeto Copo 3, com Content Pro e CADI, lançando “Serviços Mínimos”, uma ode à Liberdade de Sérgio Godinho.

Content Pro é um amante da arte graffiti, que praticou durante vários anos e membro do grupo Pirataria 2635, nos seus tempos de MC, mas é como produtor que vai deixando a sua maior marca na cultura. Produziu inúmeros projetos, incluindo “Compilação Conteúdo” onde juntou vários MCs, muitos dos quais estreantes, “Carga de Trabalhos”, de CADI e “CD Pirata – Diz que é Rap”. Integra também o projeto Copo 3.

CADI é um MC de Rio de Mouro desde cedo envolvido no movimento Hip Hop, em Portugal. Apaixonado pela cultura urbana, desenvolveu a sua arte de palco em palco, mas também se formou musicalmente, especializando-se em mistura e masterização áudio. Escreve sobre a vida, sendo fiel às raízes intervencionistas do Hip Hop. A sua maior inspiração é Chullage, artista e ativista da Arrentela, filho de pais cabo-verdianos.

CADI conta com um vasto repertório, tendo lançado o seu primeiro álbum “Carga de Trabalhos”, com o Content Pro, em 2013. Continuou a trabalhar com o produtor ao longo dos anos e, em 2025, criaram o projeto Copo 3.

MissAniana traz a música no sangue. Nascida numa família de artistas, começou desde cedo a tocar e cantar, tendo feito parte de vários projetos musicais. Inspirada em géneros como o Jazz, Blues e Reggae, redescobriu-se enquanto artista, em 2014, no movimento hip-hop. Desde aí, tem trazido uma fusão das suas referências musicais para a cultura e lançado inúmeros singles. Artista, ativista, mulher e guerreira, usa a música como arma na luta por uma vida justa, não deixando de lado as partilhas mais íntimas.

“A música e a escrita tem sido terapia para os temas mais íntimos e para as lutas que acredito. Acredito mesmo que o artivismo é uma bela e potente forma de luta.” – MissAniana.

Copo 3

Um dos mais recentes projetos com a assinatura da GraveComClave junta os artistas CADI, Kastiço e Content Pro – Copo 3 – numa homenagem ao tema Liberdade de Sérgio Godinho. Serviços Mínimos abre com um poema introdutório sobre o legado da Revolução de Abril que acompanha estes artistas, uma alusão aos desafios atuais que enfrentamos e a esperança na luta por fazer cumprir os valores de uma sociedade justa. O tema é seguido de outros cinco, um por cada pilar da emblemática canção de protesto de 1974: a Paz, o Pão, Habitação, Saúde e Educação.

Neste EP são expostas as tragédias dos nossos dias, seja a nível nacional ou internacional. Ouvimos o apelo à paz e a denúncia das violações dos nossos direitos básicos pela voz de quem também as sente na pele.

CADI, Kastiço e Content Pro estarão presentes no evento Ser Mulher, no dia 1 de março, no Teatro BYfurcação, em Sintra, apoiando a cultura local. Este evento também contará com a participação de MissAniana, numa conversa necessária sobre o direito das mulheres, com o apoio da GraveComClave. 

Acompanhe a GraveComClave nas Redes Sociais: Instagram, Youtube.

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