Maus tratos em creches: denunciar é crucial

2-3 minutos

“Tinham-me dito para não ter as expectativas muito altas, mas não esperava que fosse assim tão mau.”

Depois dos abusos físicos e psicológicos, que descobrimos que se passavam numa creche em Carnide (Fevereiro 2026), ficou no ar uma dúvida e insegurança geral pela forma como estes estabelecimentos eram geridos. Sendo que as crianças fazem parte do grupo mais de risco na sociedade, seria de esperar que quem tomasse conta delas tivesse uma bússola moral e um nível de empatia mais desenvolvido, no entanto não é o que se verifica em muitos destes estabelecimentos, especialmente em jardins de infância onde se encontram crianças de background multiétnico e multicultural como nos conta Ana (nome fictício).

Ana conta a sua experiência num desses jardins onde estagiou durante um período de tempo. A jovem esteve dois meses a estagiar num jardim de infância, onde testemunhou uma série de situações que considera inaceitáveis para profissionais da área. “Tinham me dito para não ter as expectativas muito altas, mas não esperava que fosse assim tão mau” conta Ana enquanto descreve as condições que encontrou neste estabelecimento que estagiou.

“O espaço era pequeno e superlotado, pouco ventilado onde as crianças ficam amontoadas especialmente em dias de chuva” diz Ana enquanto nos descreve que os materiais didáticos estão degradados, quando questionou o motivo, a resposta que recebeu foi “não vale a pena substituir que eles destroem tudo” e foi a partir daí que Ana se apercebe que o jardim não era nada mais que um “depósito de crianças” sem o objectivo de providenciar ferramentas para o desenvolvimento destas crianças, sem estímulos que lhes possam permitir crescer de uma forma saudável, sem um programa pedagógico que lhes pudesse preparar para o ensino primário e acima de tudo sem um apoio que lhes permitisse integrar na sociedade portuguesa, sendo que na sua maioria eram filhos de imigrantes recém chegados a Portugal.

Entre as comparações feitas pelas auxiliares, entre os seus próprios netos e as crianças do jardim, em tom de discriminação e desumanização, Ana conta um episódio terrível que presenciou, onde uma das educadoras retira a dignidade a uma criança.

“Existia uma criança (com mais ou menos 5 anos) que tinha umas calças que não lhe serviam, então estava constantemente a puxar as calças para cima, ao ver aquela situação a educadora grita com a criança e em vez de a levar para a casa de banho e ajudar a compor a criança, decidiu baixar lhe as calças em frente a toda a gente e ajeitar lhe as calças ali mesmo no meio da sala, retirando completamente a dignidade e humanidade daquela menina em frente a toda a sala.”

Ao descrever este cenário, Ana não consegue esconder o seu desapontamento e tristeza, sendo que nunca havia pensado que uma situação destas poderia acontecer, e isso veio a assombrar o seu sonho de trabalhar com crianças desde esse dia:

“Foi um choque imenso para mim, e questionei-me se seria assim em outros sítios, assim que vi o caso de Carnide apercebi-me que necessitava de falar, precisava de contar a minha experiência de forma a poder alertar a sociedade para prestar mais atenção a estes problemas que afectam imensas crianças a nível nacional.”

Créditos: nossos agradecimentos ao Alexandre Esgaio pelo desenho em destaque neste artigo.

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