Após terem se tornado mediáticos, os casos de tortura, racismo, xenofobia e discriminação da esquadra do Rato, parece que Portugal finalmente começa a acordar, para uma realidade que 99% das pessoas dos bairros e comunidades mais desfavorecidas conhecem de perto, praticamente desde o seu nascimento.
O sistema policial, tem na sua origem o controle social, sempre foi uma resposta das elites aos movimentos de massa populares, usada como braço armado para fazer repressão a qualquer grupo social, étnico ou de orientação sexual fora do status quo dos valores ocidentais.
Como o sistema capitalista agressivo escolhe as suas vítimas através de classes e etnias, quem se torna alvo são os habitantes dos bairros sociais, bairros auto construídos, sem abrigo e migrantes, como foi o caso da esquadra do Rato. São essas as pessoas visadas, porque devido à sua invisibilidade e falta de recursos, tornam-se presas dos agentes do estado. Agentes que deviam proteger as pessoas que torturaram.
Relembro-me da minha adolescência, e passagem para adulto, olho para esses tempos e vem me duas coisas à cabeça quando se fala de polícia, uma delas é o tratamento desumano e o preconceito estereotipado que sofríamos (ainda sofremos) desde as idas à esquadra sem fundamento, espancamentos e insultos. A segunda coisa que me vem à cabeça, é o facto de já terem sido feitas imensas queixas ao MP, ter havido imensos alertas do MAI e no RASI, condenações internacionais do TEDH e do comité Europeu anti-tortura, e mesmo assim os casos só têm vindo a piorar, muito devido à infiltração da extrema direita nas forças de segurança.
Por isso, quando dizem aos moradores de bairros que são “apenas umas maçãs podres na árvore”, e que isto não reflete a maioria das forças de segurança pública, a resposta que dou é que: a nós sempre nos serviram a bandeja só com essas maçãs, e que mesmo que a realidade seja de facto outra, torna se difícil de perceber devido ao aumento dos casos.
Esperemos que sejam tomadas as devidas medidas, para que se volte a confiar nas forças de segurança.
Uma nota de pesar, para todos os que perderam a vida e não obtiveram justiça.
Carlos Kangoma, empresário e activista
Legenda:
MP: Ministério Público
MAI : Ministério Administração Interna
RASI : Relatório anual da segurança interna
TEDH : Tribunal Europeu dos direitos Humanos

