No dia 10 de junho de 1995, Alcindo Monteiro foi brutalmente assassinado por nazi-fascistas skinheads. A caminho do bairro alto, o jovem — negro, português e de origem cabo-verdiana — foi interceptado por cerca de 15 homens, antes presentes em um jantar em comemoração ao “Dia da Raça”, data instituída pela ditadura fascista em comemoração à superioridade branca e violência colonial disfarçada de civilização.

Os agressores vinham do Bairo Alto, onde já tinham espancado outros nove ou dez jovens negros. Tal como estes, Alcindo foi encaminhado ao hospital, após ser encontrado na Rua Garrett. No relatório médico, lia-se: hemorragias sub-pleurais e subendocirdicas; edema pulmonar; graves lesões traumáticas crânio-vasculo-encefálicas; lesão no tronco cerebral; edema cerebral muito marcado; fractura da calote craniana.
Alcindo viria a falecer às 10h30 da manhã de 12 de junho.
O julgamento começou no dia 31 de janeiro de 1997, no Tribunal de Monsanto. Foram 17 os indivíduos identificados e acusados de crime de genocídio, dez crimes de ofensas corporais e um crime de homicídio qualificado. Nas residências dos criminosos foram encontrados materiais de propaganda nazi, acessórios com a suástica em destaque e livros, panfletos e filmes de princípios skin.

“No dia em que a sentença foi lida, em 4 de junho de 1997, os skinheads presentes a tribunal vestiam camisas pretas e todos se apresentaram de cabelo rapado. Além disso, os skins condenados anteriormente, que aguardavam a sentença sob prisão preventiva, entoaram cânticos onde repetiam as palavras ‘nazis, nazis, nazis, nazis’.”1
Entre os condenados, destaca-se uma figura em ativa nos meios de extrema-direita até hoje: Mário Machado, que recebeu uma pena de quatro anos de prisão por agressões a seis pessoas negras na mesma noite em que Alcindo Monteiro foi assassinado.
Machado é um dos fundadores do grupo e movimento nazi 1143, em defesa do ultranacionalismo, oposição à imigração de pessoas racializadas pobres e superioridade racial branca. Recentemente desmantelado pela Polícia Judiciária, o grupo planejava ações violentas e de provocação religiosa para incitar ao ódio. Foram também reveladas ligações estreitas entre o movimento e alguns membros do Chega, partido de extrema-direita.
O contexto anterior ao assassinato de Monteiro importa, e muito, e demonstra uma continuidade preocupante com o ambiente político, económico e social de Portugal em 2026. No princípio dos anos 1990, Portugal era palco de grandes transformações, sobretudo pela integração europeia e a virada na consciência e identidade coletivas. Portugal passava a integrar, afinal de contas, o clube dos ricos.
“Essa construção veio fazer uma separação entre quem somos nós e quem são os outros, não só aqueles que entraram como imigrantes, como aqueles que já cá estavam. A barreira da cor foi só um dos primeiros elementos que surgiram.”2
Este ambiente aliava-se ao governo de Cavaco Silva, à introdução da Leis dos Estrangeiros, Lei do Asilo, à uma falsa simetria entre índices de delinquência juvenil e jovens imigrantes, à substituição do solo pelo sangue na questão do direito à nacionalidade (grupos de direita e meios de comunicação, especialmente a SIC e TVI, ajudam a difundir a identificação das pessoas estrangeiras/estranhas pela cor) e ao acirramento da adoção de políticas neoliberais.
Muitos jovens — especialmente de grandes centros urbanos, onde a imigração e presença de pessoas negras, portuguesas ou não, era expressiva — desiludidos com a Democracia Cristã do CDS, que se encontrava numa posição fraca pela ascensão do PSD de Cavaco Silva, aderiram a grupos de extrema-direita.
“Agressões a indivíduos de origem africana começaram a ser habituais. Surgiram os primeiros símbolos de extrema-direita nos estádios de futebol. Frases como “Poder Branco” ou “Portugal aos Portugueses” foram escritas nas paredes de Lisboa.”2
Alcindo Monteiro foi a vítima perfeita para o contexto perfeito. Teve os seus ossos partidos, pontapés desferidos contra a cabeça (Jaime Hélder, um dos agressores, tinha tufos de cabelo do Alcindo entranhados nas solas das botas pela força exercida na agressão) e objetos de cimento lançados repetidas vezes contra a sua cabeça. Quando perdeu os sentidos, um dos agressores levantou os braços em sinal de vitória. Ainda assim, três skinheads retornaram e desferiram mais pontapés contra um Alcindo já desacordado.

Alcindo não só foi vítima de criminosos nazi-fascistas, como também da conjuntura da sociedade portuguesa da época, que possibilitou a existência de grupos ultranacionalistas formados por jovens descontentes, do racismo estrutural em continuidade com a colonização e a descolonização incompleta da consciência coletiva portuguesa e da materialidade.
31 anos depois, urge questionarmo-nos se a conjuntura mudou ou somente se reconfigurou, agora com novos atores, vítimas e ações. O dia 10 de junho é dia de memória do Alcindo, da sua paixão pela cozinha, pela dança, pelos animais e pelas pessoas que tanto amava. É dia também de almejar, em teoria e prática urgentes e estruturais, espaços livres de discriminação, violência e barbárie.
Ndawina Nhampoca

