Ontem saímos à rua para manifestar. Não apenas porque esperávamos que uma manifestação alterasse uma sentença já proferida, mas também porque há decisões que nos obrigam a refletir sobre algo maior do que o destino de um único processo.
Durante meses, o caso de Odair tornou-se um tema de debate nacional. Falou-se da perseguição policial, dos disparos, dos tumultos que se seguiram e das divisões que o caso gerou na sociedade portuguesa. Mas, depois de assistir à leitura da sentença, fiquei com a sensação de que a questão mais importante corre o risco de ficar esquecida.
A pergunta central nunca foi apenas como morreu Odair.
A pergunta central é o que aconteceu à verdade depois da sua morte.
Tudo começou com uma infração de trânsito. Seguiu-se uma perseguição que terminou quando o veículo conduzido por Odair embateu noutra viatura. Depois disso, ocorreu uma confrontação entre Odair e dois agentes da PSP. Essa confrontação terminou com dois disparos efetuados a curta distância.
Nas horas seguintes, antes mesmo de qualquer investigação aprofundada, foi divulgada uma versão dos acontecimentos segundo a qual Odair estaria armado com uma faca e teria tentado agredir os agentes. Essa versão espalhou-se rapidamente e moldou a perceção pública do caso.
Ao mesmo tempo, assistimos a algo que se tornou cada vez mais comum em casos mediáticos: a vítima passou a ocupar o banco dos réus da opinião pública. O seu passado, a sua vida privada e os seus erros foram expostos e escrutinados até ao detalhe. Pouco a pouco, o debate deixou de se centrar no que tinha acontecido naquele dia para se concentrar na pessoa que tinha morrido.
Mas então começaram a surgir vídeos gravados por moradores e testemunhas. Vídeos que levantavam dúvidas sérias sobre a versão oficial. Vídeos que mostravam que talvez a história não fosse tão simples quanto inicialmente nos tinham contado.
Mais tarde, a investigação confirmou algo de enorme gravidade: Odair não estava na posse da faca que tinha servido de base à narrativa inicial.
Segundo os factos dados como provados pelo tribunal, Odair nunca tocou nessa faca. Nunca a utilizou. Nunca levou sequer as mãos à cintura da forma que tinha sido descrita.
Estamos perante uma conclusão que deveria abalar qualquer cidadão, independentemente da sua posição sobre o caso.
Porque uma democracia não vive apenas da existência de tribunais e forças de segurança. Vive da confiança que os cidadãos depositam nessas instituições. E essa confiança depende de um princípio simples: a verdade.
É por isso que a parte mais inquietante deste processo não é apenas a morte de Odair.
É a conclusão de que existiu uma tentativa de sustentar uma narrativa incompatível com os factos posteriormente apurados.
Quando a verdade deixa de ser o ponto de partida e passa a ser um obstáculo a contornar, estamos perante um problema que ultrapassa largamente este caso concreto.
Não se trata apenas de uma família que perdeu um filho. Não se trata apenas de um agente que disparou uma arma. Trata-se da capacidade das instituições de reconhecer os seus erros e responder-lhes com transparência.
A decisão do tribunal considerou existir excesso de legítima defesa. Essa é uma avaliação jurídica que pode ser discutida e contestada. Mas existe uma outra questão que permanece: que significado atribuímos à adulteração de um cenário, à apresentação de uma versão falsa dos factos e à tentativa de associar uma arma a alguém que já não pode defender-se?
Porque não estamos a falar de um erro de segundos cometido num momento de tensão. Estamos a falar de atos posteriores, praticados quando já existia tempo para refletir, avaliar e escolher entre a verdade e a mentira.
E é precisamente por isso que tantas pessoas continuam indignadas.
Não porque apenas recusam aceitar uma decisão judicial.
Mas porque acreditam que a justiça não pode limitar-se a decidir quem é culpado e quem é inocente. Tem também de demonstrar que a verdade continua a ter valor, sobretudo quando os factos envolvem quem detém poder e autoridade.
Ontem, na manifestação, vi pessoas diferentes, com histórias diferentes e motivações diferentes. Mas havia uma ideia comum que atravessava todas as palavras de ordem e todos os cartazes: a exigência de verdade. No fim, talvez seja essa a questão que sobreviverá a este processo.
Se uma sociedade aceita que a verdade seja moldada para proteger quem tem poder, perde muito mais do que um julgamento. Perde a confiança de que a lei é igual para todos.
E quando essa confiança desaparece, aquilo que está em causa deixa de ser apenas um caso judicial.
Passa a ser a própria qualidade da nossa democracia.
Ghoya é rapper e activista

