O Campeonato do Mundo de 2026 apresenta-se como uma celebração da humanidade. Quarenta e oito seleções. Centenas de nacionalidades representadas. Milhões de adeptos a atravessar oceanos para acompanhar o maior espetáculo desportivo do planeta.
Pelo menos em teoria. Porque, na prática, nem todos chegam ao Mundial da mesma forma.
Nem todos atravessam as mesmas fronteiras.
Nem todos são recebidos com o mesmo olhar.
O futebol gosta de repetir que pertence a todos. A FIFA fala constantemente de inclusão, diversidade e união entre povos. Os vídeos promocionais mostram crianças de todas as cores a jogar à bola. Os dirigentes discursam sobre respeito e igualdade. As campanhas contra o racismo multiplicam-se em cada competição internacional.
No entanto, basta olhar para além dos estádios para perceber uma realidade menos confortável.
O Mundial de 2026 acontece num contexto político particularmente delicado. Os Estados Unidos, um dos países anfitriões, têm vivido anos marcados por um endurecimento do discurso sobre imigração, segurança fronteiriça e controle de entradas. Em diferentes momentos, cidadãos de determinados países enfrentaram restrições acrescidas, processos mais demorados de obtenção de vistos ou níveis superiores de escrutínio administrativo.
Oficialmente, estas medidas são justificadas por razões de segurança. Na prática, a sua aplicação levanta uma questão inevitável: Por que razão determinadas nacionalidades parecem gerar mais suspeitas do que outras? Porque é que um adepto proveniente de um país europeu rico é frequentemente visto como turista, enquanto um adepto proveniente de alguns países africanos, árabes ou asiáticos é muitas vezes observado através da lente da suspeita?
O futebol não criou esta desigualdade mas também não consegue escapar-lhe.
Enquanto milhões de adeptos celebram a ideia de um campeonato verdadeiramente mundial, muitos (e quase sempre os mesmos) enfrentam obstáculos (demasiado) burocráticos que pouco ou nada têm a ver com futebol e muito com a forma como os seus países são percebidos pelo resto do mundo.
A fronteira continua a ser um filtro e esse filtro não trata todos da mesma maneira.
No entanto, existe uma ironia histórica particularmente forte neste Mundial. Durante o século XIX, milhares de pessoas escravizadas atravessaram clandestinamente a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá através da Underground Railroad. Para essas pessoas, o Canadá representava algo simples e extraordinário: a possibilidade de serem vistas como seres humanos livres.
Entre as figuras mais conhecidas dessa história encontra-se Harriet Tubman, mulher negra que arriscou repetidamente a sua vida para ajudar outros a escapar da escravatura.
Duzentos anos depois, o Canadá continua a aparecer simbolicamente como uma terra de acolhimento, enquanto o debate sobre fronteiras e imigração permanece no centro da política norte-americana.
A história muda mas as perguntas permanecem. Quem pode entrar? Quem é bem-vindo? Quem é visto como ameaça?
Estas questões tornam-se ainda mais evidentes quando observamos as próprias seleções europeias. França, Inglaterra, Bélgica, Países Baixos e Portugal chegam ao Mundial com equipas profundamente marcadas pela diversidade étnica e cultural. Muitos dos seus jogadores têm origens familiares em países africanos ou em antigos territórios coloniais.
A França não pode ser compreendida sem o Senegal, a Argélia, o Mali ou a Costa do Marfim.
A Bélgica não pode ignorar a sua ligação histórica ao Congo.
Os Países Baixos carregam uma herança que passa pelo Suriname e pelas Caraíbas.
Portugal continua ligado a Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Brasil.
Durante séculos, os impérios europeus expandiram-se pelo mundo, exploraram recursos, invadiram e controlaram territórios e governaram populações inteiras.
Hoje, os descendentes dessas populações vestem as camisolas nacionais desses mesmos antigos impérios. Talvez não exista imagem mais poderosa da história contemporânea. Mas também talvez não exista imagem mais contraditória.
Os países que durante séculos decidiram quem pertencia e quem ficava de fora, celebram agora como heróis nacionais os descendentes daqueles que outrora foram governados como súbditos coloniais.
A diversidade das seleções europeias é frequentemente apresentada como prova de sucesso. E, em muitos aspetos, é.
Mas existe uma pergunta que continua sem resposta. Se a integração foi tão bem-sucedida, porque é que o racismo continua a surgir com tanta força e tanta facilidade?
A resposta aparece quase sempre nos momentos de derrota.
Quando a Inglaterra perdeu a final do Euro 2021, Marcus Rashford, Jadon Sancho e Bukayo Saka tornaram-se alvo de uma onda de insultos racistas. Durante anos tinham sido apresentados como símbolos do orgulho nacional.
Bastou uma noite para que milhares de pessoas questionassem a sua pertença à mesma nação que representavam.
O fenómeno repete-se regularmente em vários países europeus. Os jogadores negros são celebrados quando vencem mas também são frequentemente transformados em suspeitos quando perdem. A nacionalidade parece ser plena apenas enquanto os resultados acompanham. E é precisamente aqui que as instituições do futebol revelam as suas limitações.
A FIFA e a UEFA condenam o racismo. Produzem campanhas. Organizam cerimónias. Publicam comunicados. Mas a realidade é que os episódios continuam a repetir-se geração após geração.
Os cânticos racistas continuam presentes em muitos estádios. Os insultos nas redes sociais continuam a atingir atletas de forma sistemática.
As punições raramente parecem proporcionais à gravidade do problema.
Hoje em dia, o futebol moderno consegue rastrear cada passe, cada corrida e cada movimento dentro de campo com uma precisão extraordinária. Mas continua a demonstrar uma surpreendente incapacidade para erradicar comportamentos racistas das suas competições.
Talvez porque o racismo seja tratado sobretudo como um problema de imagem e não como uma ameaça estrutural ao próprio desporto.
Talvez porque combater verdadeiramente o racismo exija decisões que podem ser impopulares, economicamente incómodas ou politicamente difíceis.
O Mundial de 2026 será apresentado como uma festa da diversidade. E, de facto, será.
Mas também será um espelho. Um espelho que refletirá as contradições de um mundo que celebra jogadores negros nas seleções dos antigos impérios coloniais, enquanto continua a olhar com desconfiança para muitas pessoas provenientes dos mesmos lugares de onde vieram os seus pais e avós.
Um espelho que mostrará estádios cheios de mensagens contra o racismo, ao mesmo tempo que milhões de pessoas continuam a enfrentar preconceitos associados à sua nacionalidade, origem étnica ou cor da pele.
O futebol gosta de dizer que une o mundo.
Talvez seja verdade.
Mas unir não é o mesmo que incluir.
E incluir não é o mesmo que tratar todos por igual.
Essa continua a ser a partida que o futebol, as suas instituições e muitas das sociedades que o celebram ainda não conseguiram vencer.
Por Miguel Cardoso, ativista

