A Vida Justa é um movimento político dos bairros e tem como objectivo que as pessoas dos subúrbios da classe trabalhadora se organizem para tornar os habitantes destes territórios visíveis politicamente e com a capacidade de decidirem o seu destino.
A Vida Justa não é uma ONG, não pretende prestar serviços que substituam a ausência de políticas públicas do Estado, mas é um instrumento para que os bairros ganhem poder político para conseguirem forçar o Estado a atender as suas reivindicações.

As notícias dos jornais e nas televisões, no início de Maio de 2026, dizem todas a mesma coisa: a polícia foi atacada na Quinta do Mocho, agentes da autoridade tiveram de responder a tiro e foram feridos. Nenhum jornalista tentou confirmar a veracidade do comunicado da PSP. O testemunho dos moradores e os vídeos que existem mostram uma realidade muito diferente: a polícia entrou aos tiros no bairro e mandou para o hospital vários moradores.
“São 62 crianças que vão hoje parar à rua. O apoio da Câmara de Loures a estas pessoas volta a não ser nenhum”, afirmou à Lusa, Miguel Dores do movimento Vida Justa.
Em causa está a demolição, em Julho de 2025, de 51 casas autoconstruídas, segundo número fornecido pela Câmara Municipal de Loures, no bairro do Talude Militar.
A Vida Justa denuncia que as famílias ficaram desalojadas e não tiveram, como obriga a Lei de Bases da Habitação, nenhuma solução de alojamento viável.
Noticiava o Jornal de Notícias, que uma mulher muçulmana, que usava hijab (o lenço que cobre a cabeça) e uma máscara cirúrgica, foi expulsa de um autocarro da Carris, em Lisboa, pelo motorista da carreira 737, no final de Abril de 2026, alegando que não podia entrar no veículo com a cara tapada. A utente apresentou queixa e a Carris abriu um inquérito para apurar os factos.
A cidadã bengalesa, de 26 anos, garante que foi impedida de entrar no autocarro da Carris quando regressava a casa depois de deixar os dois filhos numa escola de Lisboa. O motorista disse-lhe que não podia “entrar de máscara”. Face ao reparo do motorista, Mim Akter baixou a máscara para mostrar o rosto, mas o motorista insistiu que, se não a retirasse, o autocarro não arrancaria. A mulher acabou por sair, depois de pressionada por outra passageira “para não arranjar problemas”, garante o jornal.
Segundo o Expresso, o processo sobre a morte de Odair Moniz, baleado pela PSP na Cova da Moura, em Outubro de 2024, conheceu novos desenvolvimentos. Quatro testemunhas — dois polícias e dois profissionais do INEM — colocam em causa a versão do agente Bruno Pinto, acusado de homicídio, que afirmou ter disparado devido ao cozinheiro empunhar uma faca.

Os agentes Joel e Tiago dizem não ter visto qualquer arma junto ao corpo no local, e os elementos do INEM, António e Ana, afirmam o mesmo: só mais tarde terão reparado numa faca a uma certa distância da vítima.
Seis vídeos mostram um agente da polícia a colocar um objeto similar a uma faca junto do corpo de Odair Moniz. E o Ministério Público concluiu que a arma branca poderá ter sido “plantada” no local, considerando “inverosímil” a narrativa dos polícias, mas arquivou as suspeitas do crime alterar o local da morte por falta de provas, afirma o semanário.
São alguns dos casos que todos os dias acontecem que são retirados de notícias da comunicação social mostrando a contínua criminalizarão das populações trabalhadoras dos bairros. A construção de uma zona em que as pessoas não têm direitos. A repressão dos bairros, em contexto da hegemonia da extrema-direita, dá votos e é acarinhada por homens como Ricardo Leão, presidente do PS da Câmara Municipal de Loures, que vê a política de despejos de centenas de habitantes da Quinta do Mocho, e de bairros autoconstruídos, como o Talude, reforçar-lhe a votação nas eleições autárquicas. Os pobres não votam, muitos deles nem têm direitos políticos, e a mítica classe média está viciada em discursos que garantem que a crise económica não tem a ver com o poder dos muito ricos, mas com existência de gente muito pobre.

Em 2 de Outubro de 2022, realizou-se na Cova da Moura a “Oficina de comunicação contra o aumento de preços”, organizada pela Iniciativa dos Comuns. Participaram mais de 50 pessoas, entre militantes e habitantes dos bairros.
Na sessão, uma habitante da Cova da Moura afirmou como era impossível comprar a bilha de gás com o aumento do preço que tinha.
O que era uma acção de formação de dirigentes associativos e militantes passou a ser, no decurso de algumas horas, um embrião de uma nova organização dos bairros, dada a visível necessidade de se fazer qualquer coisa.
Nas reuniões que se seguiram, decidiu-se convocar uma manifestação contra o aumento dos preços para Fevereiro de 2023. Uma acção que não era um objectivo em si, mas uma forma de mostrar, no centro da capital, a força dos bairros e conseguir partir da mobilização para a organização popular nos bairros.
Este processo não começava no nada, tinha em conta as redes de solidariedade que se tinham formado nos bairros durante a pandemia, distribuindo apoio e comida aos mais necessitados e prévias experiências organizativas nos bairros, como a Plataforma Gueto. Deu-se um uso diferente da forma de manifestação: na Vida Justa nunca seria um objectivo em si, mas uma forma de conseguir mais força e poder organizativo.
Os vários confinamentos da presente pandemia na capital revelaram o que se já sabia. Sob que ombros cai o peso do funcionamento da região da grande Lisboa. É sob os trabalhadores das fábricas e da construção civil, profissionais de cuidados, logísticas, empregadas domésticas, estafetas de entrega de produtos de alimentação uberizados, trabalhadores de limpeza e higiene urbanas, enfermeiros e auxiliares, uma maioria que não tem representatividade política no parlamento.
Em suma, qual é o estatuto que os bairros empobrecidos gozam na sociedade portuguesa? O estatuto de colónia que fornece mão-de-obra barata, em que a taxa de desemprego crónica deve ser duas ou três vezes maior do que a nível nacional, em que a falta de emprego e expectativas conduz a juventude, dos bairros, a soluções desesperadas.
Num estudo coordenado por Thomas Piketty, sobre a relação entre as desigualdades sociais e os resultados eleitorais em 50 países “democráticos” (“Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais”), verifica-se que há em muitos países desenvolvidos uma evolução: antigamente, as classes trabalhadoras tendiam a votar à esquerda e os patrões, ricos e licenciados, à direita. Hoje, verifica-se que os licenciados votam à esquerda, e que parte das classes trabalhadoras já não vota, ou não o faz à esquerda. Isso coincidiria com várias circunstâncias como o abandono por parte da esquerda do terreno popular e da defesa das classes trabalhadoras; a passagem de reivindicações “materiais” para “pós-materiais”, enquanto se multiplicam novas lutas de carácter identitário, que tornam invisível o conflito de classes. Como alguém dizia, “a classe social não foi morta, ela foi enterrada viva”.
Sabemos que o capitalismo, racismo, machismo, homofobia são usados como instrumentos extras de exploração e de divisão dos explorados. É preciso fazer a luta contra as várias discriminações uma frente ampla da luta contra a exploração e o capitalismo.

Olhando para Lisboa, podemos ver que, apesar da gentrificação que atira os menos ricos para fora da cidade e para os subúrbios, ainda existem nos bairros camarários mais de 10% dos eleitores da cidade.
Populações invisibilizadas, em zonas com fracos equipamentos sociais, mal servidas de transportes, sujeitas a frequentes operações policiais repressivas, com uma baixa participação política, comparada com os bairros mais ricos. São os trabalhadores mais pobres, muitos deles racializados, que criam grande parte da riqueza da cidade, mas foram expulsos do quadro da cidadania e da representação política.
Corridos também desta cidade, com a nítida sensação de que estão a viver pior que os pais, estão muitas pessoas de camadas médias, cada vez mais precarizadas e proletarizadas. Neste caldo em que a vida piora todos os dias, há muitas pessoas que se sentem sem rede social, para quem as explicações xenófobas, machistas e racistas do populismo significam uma forma de protesto.
Não tenhamos ilusões, populismo e neoliberalismo alimentam-se mutuamente. O neoliberalismo cria a miséria em que o populismo de extrema-direita medra, e este garante que nada de mal aconteça aos privilégios dos ricos e às regras que permitem ao grande capital viver em paz.
As classes sociais não deixaram de existir, nem as desigualdades sociais deixaram de crescer, mas qualquer luta política que combata o poder dos capitalistas tem de passar por dar mais poder e mais rendimento às classes trabalhadoras. Isso só é possível mobilizando quem trabalha, construindo consciência social e mostrando aos trabalhadores que fazem parte da mesma classe. O lugar da fala tão propagado, nestes tempos de individualismo e em que tudo se parece reduzir a comportamentos de privilégio pessoal, não existe como se diz. Ele só existe em termos sociais e colectivos se for activado com luta e ideias.
O caminho da Vida Justa faz-se com manifestações próprias, como a de Fevereiro de 2023 e Outubro de 2023, pela participação em movimentos mais amplos, como a Casa Para Viver, na construção de momentos de resistência de massas, como as manifestações a favor da justiça para Odair Moniz ou o Não nos encostem à parede, criando programas populares, como na Assembleia Popular dos Bairros. Mas faz-se sobretudo na resistência diária aos despejos e na vontade de se implantar em todos os bairros dos subúrbios, organizando acções de resistência e tentando encontrar formas de participação e mobilização local, como as que saíram à rua na Grande Marcha dos Bairros.
Artigo originalmente publicado na revista Manifesto
Nossos agradecimentos a Leonor Mire pelos grafismos deste artigo e a Inês Rodarte pelas fotos

