Uma nova oportunidade a nós próprios, por Ghoya

5-8 minutos

Há uma coisa que me preocupa mais do que a falta de oportunidades ou as coisas difíceis que temos vindo a viver.

É quando deixamos de acreditar que é possível criarmos as oportunidades ou que elas podem existir.

Muitos de nós viemos de lugares onde a luta pela igualdade e pela justiça nunca desapareceu. Continuamos a falar. Continuamos a denunciar. Continuamos a exigir.

Mas sinto que, dentro das nossas próprias comunidades, alguma coisa se partiu.

A esperança está fragmentada.
A confiança está fragmentada.
E até a vontade de caminhar juntos está fragmentada.
E consigo compreender porquê.

Não podemos pedir a uma comunidade que seja eternamente forte depois de décadas a ser empurrada para a margem.

Não podemos pedir às pessoas que mantenham a mesma esperança depois de crescerem a ver instituições que deviam protegê-las a aparecerem muitas vezes apenas para controlar, punir ou abandonar.

Há pessoas que aprenderam a sobreviver sem esperar nada de ninguém.

E isso também é uma consequência do abandono.

Quando o Estado falha durante demasiado tempo, começamos a desconfiar de tudo.
Quando uma promessa é quebrada muitas vezes, deixamos de acreditar.
Quando uma pessoa luta durante anos e nada muda, chega um momento em que começa a questionar se vale a pena lutar.
E é aqui que precisamos de ter uma conversa entre nós pessoal.

Não quero romantizar o nosso sofrimento.

Não quero transformar o bairro apenas numa imagem bonita de resistência enquanto continuamos a ignorar aquilo que está mal dentro dele.

Há muita coisa a melhorar. Temos de reconhecer isso.

Ainda temos demasiados jovens que estão a crescer sem referências, sem oportunidades e, muitas vezes, sem acreditar que o futuro lhes pertence.

Precisamos de conseguir falar disto sem vergonha. Porque amar uma comunidade não significa esconder os seus problemas. Significa ter coragem para enfrentá-los.

E acredito que precisamos de dar uma nova oportunidade a nós próprios.

Não é aceitar que somos os responsáveis por tudo aquilo que nos acontece. É não esperar que se venha resolver tudo por nós. Uma coisa não invalida a outra.

O sistema tem responsabilidades e poder. Pois, nós também!
E talvez tenhamos de recuperar essa responsabilidade e esse poder.
Voltar a organizar.
Voltar a conversar.
Voltar a criar estruturas.
Voltar a juntar pessoas que estão cansadas de lutar sozinhas.

Mas há uma coisa que também temos de assumir: quando os nossos bairros precisam de nós, temos de estar lá.

Quando uma comunidade está a ser prejudicada, discriminada, abandonada ou atacada, não podemos esperar que sejam sempre os outros a aparecer.

Quando acontece alguma coisa que afeta sistematicamente as nossas comunidades, a nossa presença também é uma forma de resistência.

É importante estar.
É importante participar.
É importante aparecer.
É importante dar a cara.

Porque uma luta que diz respeito a milhares de pessoas não pode ser sustentada permanentemente por meia dúzia.

E não digo isto para culpabilizar quem não consegue estar presente. A vida é difícil. Há pessoas que trabalham, que cuidam dos filhos, que têm medo, que estão cansadas, que carregam os seus próprios problemas.

Mas temos de reconhecer uma coisa: quando aqueles que são diretamente afetados por uma injustiça desaparecem precisamente dos momentos em que a sua presença é mais necessária, a luta fica inevitavelmente mais frágil.

E não é apenas uma questão de números. É uma questão de direção.

Quando uma injustiça é sistemática, a resposta também precisa de ter continuidade.

Não podemos aparecer apenas quando acontece alguma coisa que nos revolta particularmente e desaparecer quando chega o momento de construir.

Não podemos exigir mudança e, ao mesmo tempo, deixar que sejam sempre os outros a ocupar os espaços onde essa mudança é discutida.

Porque, se não estivermos presentes, alguém vai falar por nós.

Pode até falar com boas intenções. Mas ninguém conhece uma comunidade melhor do que as pessoas que vivem nela.

Precisamos de estar presentes quando os bairros precisam de nós.
Quando as nossas comunidades precisam de nós.
Quando alguém é injustiçado.
Quando uma escola precisa de ser defendida.
Quando uma família precisa de apoio.
Quando uma decisão política ameaça ou coloca em causa a segurança, a humanidade ou a integridade das comunidades.
Quando é preciso ocupar uma rua, sentar numa mesa, organizar uma reunião, construir uma associação ou simplesmente aparecer.

Estar presente também é uma forma de dizer: nós existimos, estamos atentos e não vamos deixar que decidam tudo sobre nós sem nós.

Não precisamos de estar todos em todo o lado. Mas precisamos de começar a encontrar formas de estar juntos nos momentos certos.

Porque uma comunidade que não consegue convergir nos momentos decisivos dificilmente consegue transformar a sua indignação em força social, cultural e política.

E é aí que o abandono ganha outra vitória.

Primeiro abandona-se uma comunidade.
Depois fragmenta-se.
Depois cada pessoa aprende a sobreviver sozinha.
E, finalmente, todos começam a acreditar que não existe força suficiente para mudar nada.
É esse ciclo que precisamos de quebrar.

Porque há uma coisa que o abandono nos ensinou demasiado bem:
cada um por si.

E eu não acredito que seja esse o caminho. E acredito que a maioria de nós também acredita que o caminho não é por aí.

Se queremos uma sociedade mais justa e mais segura, temos de perceber que justiça e segurança também se constroem de baixo para cima.

Constroem-se quando uma comunidade cuida das suas crianças.
Quando alguém cria uma oportunidade para outro.
Quando um jovem encontra uma referência antes de encontrar uma arma.
Quando a cultura chega antes da violência.
Quando conseguimos transformar revolta em organização.
Quando conseguimos transformar talento em oportunidade.

Eu não acredito que as pessoas dos bairros e pobres estejam condenadas.

Não acredito que a pobreza seja uma identidade.

Não acredito que o abandono seja destino.

E não acredito que tenhamos de esperar que alguém venha dizer-nos aquilo que somos capazes de fazer ou não.

E também não acredito naquela conversa de que basta querer. Querer já é alguma coisa mas não basta querer.

É preciso estrutura.
É preciso investimento.
É preciso políticas públicas.
É preciso justiça.
É preciso educação.
É preciso oportunidades.

Talvez seja essa a nova luta.

Não apenas lutar contra aquilo que nos oprime.

Mas reconstruir aquilo que o abandono foi destruindo dentro de nós.

A confiança.
A solidariedade.
A capacidade de sonhar.
A capacidade de acreditar uns nos outros.

Mas também é preciso uma coisa que nenhum governo consegue oferecer por decreto: convicção.

A convicção de que vale a pena tentar.
A convicção de que vale a pena juntarmo-nos.
A convicção de que o nosso vizinho não é o nosso adversário.
A convicção de que aquilo que acontece ao outro também diz respeito a mim.

Porque nós já gritámos muito.

E temos razões para gritar.

Mas talvez esteja na altura de perguntarmos:

o que fazemos com esse grito?
Como o transformamos em organização?
Como o transformamos em educação?
Como o transformamos em cultura?
Como o transformamos em poder?
Como o transformamos numa vida diferente para quem vem depois de nós?

Eu acredito que podemos.

Não porque seja fácil.

Mas porque já sobrevivemos a coisas muito difíceis.

E talvez agora seja altura de fazer mais do que sobreviver.

Dar-nos uma oportunidade de viver.
Uma oportunidade de construir.
Uma oportunidade de errar sem desistir.
Uma oportunidade de voltar a confiar.

Ninguém vai conseguir construir uma sociedade mais justa sozinho.

E talvez a mudança comece precisamente quando deixarmos de esperar que alguém venha salvar-nos e começarmos, juntos, a construir as condições para que ninguém precise de ser salvo.

Precisamos de dar uma nova oportunidade a nós próprios.

E desta vez, não apenas para sobreviver… mas sim para transformar.

Ghoya é rapper e activista

Nossos agradecimentos a Leonor Mire pelos grafismos deste artigo

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