Costa Cabral: a rua é de quem lá vive

2-3 minutos

“Trincheiras”, “barricadas”, um arranjo “feio, horrível e ridículo”. Foi assim que moradores e comerciantes descreveram ao Jornal de Notícias os enormes blocos de betão que a Câmara do Porto plantou ao longo da Rua de Costa Cabral, entre o Marquês e a Avenida dos Combatentes. O Público também foi para a rua e encontrou o mesmo: uma mudança recebida entre críticas e alguma esperança, numa via que de um dia para o outro passou a ter sentido único, limite de 30 km/h e barreiras de betão e floreiras a apertar o alcatrão.

Quase todos se queixam do mesmo: ninguém lhes perguntou a sério. A Câmara diz que fez reuniões e apresentou o plano. Mas quem vive e trabalha na Costa Cabral sentiu que estava tudo decidido de antemão. A obra avançou depressa, em pleno verão, e caiu em cima das pessoas como coisa imposta.

E razões de queixa não faltam. Os comerciantes não sabem como receber as mercadorias. Os blocos são frios e agressivos, não convidam ninguém a parar ou a passear. E o movimento de gente, que devia ser o grande objetivo da mudança, não aparece. Os militantes do Vida Justa ouviram isto na primeira pessoa, porta a porta.

Ninguém diz que a Costa Cabral estava bem como estava. Os passeios tinham cerca de um metro de largura. Carrinhos de bebé, pessoas com dificuldade em andar, contentores, carros mal estacionados, paragens de autocarro, tudo se acotovelava no mesmo espaço, enquanto os carros passavam a 50 km/h, e muitas vezes mais. É uma rua cheia de vida: cafés, talhos, farmácias, lojas de roupa, escolas, um hospital, um clube. Merecia melhor, e há muito tempo. Mas melhor não é betão despejado sem conversa.

A Câmara veio depois dizer que se trata de um projeto experimental e que o regresso às aulas será o grande teste. Se é uma experiência, então que se oiça quem a vive todos os dias. E que aquilo que as pessoas disserem conte mesmo.

Porque não chega fazer uma reunião para cumprir calendário. Ouvir a população tem de ter consequências. Quem sobe e desce aquela rua sabe melhor do que qualquer gabinete onde faltam passeios, onde é preciso atravessar, onde as carrinhas têm de parar, onde os miúdos brincam. Qualquer mudança no espaço público tem de ser discutida com quem o usa: antes, durante e depois das obras.

Por isso defendemos a criação de assembleias de bairro, abertas a moradores, comerciantes e trabalhadores, tanto nas periferias como no centro. Espaços onde as pessoas decidam o que querem para as suas ruas, os seus passeios, os seus serviços, o seu tempo. Assembleias que se reúnam com regularidade, que tenham voz junto da Câmara e das juntas de freguesia, e cujas decisões não fiquem esquecidas numa gaveta. Uma cidade pensada para quem cá vive, e não só para quem está de passagem com a mala de rodinhas atrás.

O Porto não pode ser só postal para turistas. A luta pela Costa Cabral é a luta por uma cidade que seja nossa. E essa luta faz-se juntos, rua a rua, bairro a bairro.

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